
Muitas conversas minhas, tanto com o Loque quanto com a Luciana, foram a respeito de como as coisas em geral eram vistas na pós-modernidade. Na verdade com o Loque conversamos muito
se a pós-modernidade existia mesmo, e com a Luciana falávamos sobre como ficava a condição da Antropologia em um mundo "pós-moderno." Eu não tenho conhecimento suficiente, e específico suficiente para discutir a pós-modernidade. Não sei dizer com clareza o que é, se existe ou não, mas sei que um conceito que é pós-moderno e que tem me feito pensar muito a respeito de minha inserção no mundo é a idéia de
desconstrução.O Loque me fala muito que a História Cultural geralmente busca desconstruir determinados conceitos, ideologias, figuras históricas, etc, para poder enxergar com mais clareza, para se poder construir um novo discurso sobre o objeto histórico em questão. Loque fez um trabalho de grande peso seguindo esse caminho com a figura de Heitor Villa-Lobos. Em seu livro
O Ritmo da Mistura e o Compasso da História Loque desconstroi com habilidade muito do que foi dito sobre Villa-Lobos e oferece uma interpretação bem diferente das corriqueiras sobre a obra de Villa-Lobos e seu lugar na cultura brasileira.
Vejo também que a Antropologia acaba trabalhando muito com a idéia de desconstrução. Sim, pois, ao se contemplar a imensa diversidade de escolhas que se fazem possíveis dentro das inúmeras culturas que são diversas da nossa, a idéia de "absoluto" de "verdadeiro" fica difícil de ser sustentada. Então fica-se a um passo de se questionar os valores mais profundos, mais intocados.
Também lembro da psicanálise que acaba por ser um meio de se desconstruir a si mesmo para entender onde estão as rachaduras, para depois, eventualmente, superar-se os traumas. Eu, que alguma coisa estudei de filosofia, questionei toda a fé que eu tinha e acabei virando ateu. Desconstrui meu "deus" e acabei ficando sem ele.
Acho que existem vários caminhos diferentes: ciência, arte, fiolosifia, religião, mas ao longo do caminho acaba-se por perceber que quase tudo que vivemos é de alguma forma construído culturalmente. E aceitar-se isso significa dizer que tudo pode ser desconstruído. À partir daí dizer que tudo é uma grande ilusão, que tudo é fabricado, fica fácil. Mas o que fazer com essa constatação?
Quando penso muito nessas coisas sinto uma náusea existencial parecida com aquela que o Antoine Roquentin sente ao jogar a pedra no rio. Sim, estou falando do historiador personagem principal de uma das obras primas de Sartre, o romance
A Nausea. Porém a náusea que eu sinto vem de vários lados, ou na verdade eu acho que são diferentes náuseas existencias que me aparecem ao mesmo tempo. Como disse anteriormente tenho estudado alguma coisa de física quantica e sobre as teorias mais atuais sobre o universo. Tudo faz muito sentido, mas quando leio sobre como as partículas infinitesimais que formam um átomo se interagem de forma tão "perfeita" tão simétrica isso me dá também uma sensação de náusea por não sei qual o motivo.
Pensar que o universo era todo tão compacto quanto um eléctron, e com massa e gravidade infinitas, e que depois da suposta grande explosão, o Big Bang, as quatro forças que regem o universo (Gravidade, Eletro-Magnetismo, Nuclear Forte e Nuclear Fraca) se organizaram e então que tudo que é se formou e tudo o que até hoje existe se tornou possível... pensar isso tudo deixa minha alma em meio a um turbilhão de sensações. Acho que essa organização tão perfeita do universo é muito antagônica à desorganização que eu vejo na interação entre as pessoas no mundo e na relação das pessoas consigo mesmas. Tudo deveria fazer muito sentido, mas vejo que mesmo Einstein, com todas as suas idéias revolucionárias, pode ser desconstruído.
A idéia de que nada faz sentido é (pelo menos eu acho) já aceita. A questão é como dar sentido às coisas e aceitar que o sentido que damos é tudo o que temos. Se eu desconstruir completamente o que eu sou, e todas as escolhas que eu fiz o que me resta é escolher quem eu quero ser, o que eu quero fazer, que ilusão que eu quero alimentar. Depois de decidir isso acho que o que resta é seguir.
Isso pode significar desespero em um primeiro momento, mas depois pode ser muito libertador. Depois de me questionar "Por que é que eu faço isso e não aquilo?" acho que vou moldar a minha própria ilusão de modo que os objetivos que eu busco sejam mais alcançáveis e também de modo que a vida que eu projeto para mim seja mais permeada de pessoas do que de coisas.
Eu me interesso muito pela filosofia de Wittgenstein por ser uma lógica que se transforma em ética, e por ser uma filosofia que tenta contemplar os limites da filosofia e da linguagem abrindo caminho para a vivência do místico. Pensei em fechar esse escrito falando um pouco das coisas que pensei por meio dele, mas ele mesmo fecha seu livro
Tractatus Logico-Philosophicus com um aforisma que me desencoraja a fazer isso. Eu recomendo a você, caro leitor, que leia, e leia várias vezes e tente entender esse livro. Mas vai lá o aforisma:
Sobre aquilo sobre o que não se pode falar, deve-se calar. Eu me calo.